Empresas

A Ford Motors Company e a ajuda ao esforço de guerra nazista

Quais os limites de uma empresa para obter lucro?

 

Esta é uma pergunta que vem sendo feita a décadas e ao que tudo indica, não existe uma resposta. Ao longo dos anos vemos exemplos dos mais diversos, que vão desde a falta de ética a até mesmo ações criminosas. Um destes casos, é a atuação do poderoso conglomerado FORD no período da Segunda Guerra Mundial. A FORD atuou em ambos os lados do conflito, tudo por conta do lucro, contudo a FORD não cometeu nenhum tipo de crime, no que concerne às leis das nações em que estava atuando.

 

A história da Ford Motor Company na Alemanha, teve inicio em 1926, quando foi iniciada a construção em Berlim, de uma unidade de montagem de automóveis Ford, com peças fabricadas nos Estados Unidos. Nesta época a fábrica era de propriedade cem por cento norte-americana.  No ano de 1929, a Ford Motor Co. AG, como era conhecida a Ford alemã, foi reorganizada e ampliada, contando então com a participação da Ford britânica (Ford Motor Co. Ltd. – Dagenham), tendo mais de 60 por cento das ações. O restante das ações foram vendidas para empresas alemãs selecionadas (uma destas empresas era a IG Farben, que adquiriu quinze por cento das ações).

 

Esta constituição seria alterada por dois fatores bastante distintos:

1)     O aumento do nacionalismo germânico, que promovia o slogan “Compre produtos alemães”;

2)     Basicamente a Grande Depressão de 1929, que na Europa se fez sentir com mais intensidade entre os anos de 1931 e 1934.

 

A Ford Motor Co AG solucionou relativamente fácil estes problemas. Para a questão do nacionalismo, a Ford construiu uma nova unidade em Colônia, chamada Ford-Werke AG, e buscou produzir a maior quantidade de suas peças com materiais não produzidos na Alemanha. A questão da depressão foi resolvida com a reorganização da própria Ford Motor Company, de Dearborn, que destinou à unidade alemã, a produção de componentes técnicos, como velocímetros, que seriam vendidos às unidades da Ford ao redor do mundo.

 

Porém no ano de 1933, Hitler chega ao poder e dá início a uma espécie de economia de guerra, o que trouxe novos problemas. Uma das determinações da nova política econômica alemã determinava que as indústrias alemãs evitassem ao máximo o pagamento de suas importações em dinheiro, pois a intenção era manter um saldo cambial favorável e ao mesmo tempo ter o poder interferir no que seria importado, para ter certeza que estas importações serviriam a seus preparativos para a guerra.

 

Para a Ford-Werke AG, esta nova política representava uma excelente oportunidade para exportar automóveis e peças automotivas, e obter do exterior os materiais necessários para fabricar mais automóveis e peças, conforme apresentado no Reporte Anual da Ford-Werke AG, do ano de 1935:

 

“… Nossa empresa também tem considerável e ativo interesse nesta importantíssima tarefa da indústria alemã, ou seja, o desenvolvimento do crédito externo. Nossas exportações cresceram em 1935, para aproximadamente 1’280’000RM e esperamos ser capazes de aumentar esta quantidade consideravelmente em 1936.

 

Neste contexto, deve ser lembrado que, em virtude das relações comerciais especiais que nossa empresa mantém com as empresa espalhados por todo o mundo, estamos em uma posição diferente, no que diz respeito à exportação, das fábricas que trabalham exclusivamente na Alemanha.

 

A fim de ajudar a interesses econômicos alemães, uma série de outras empresas Ford, especialmente as americanas e inglesas,  fizeram encomendas de produtos industriais da Alemanha.”

 

 

Este trecho do relatório, que foi enviado à Ford Motor Company de Dearborn, deixa bastante claro que a sua subsidiária alemã estava empenhada não só em obter lucro para seus acionistas (fossem eles americanos ou alemães), mas estava empenhada em ajudar a economia nacional alemã, ou mais especificamente a economia de guerra de Hitler.

 

No entanto isto não pareceu preocupar o alto escalão da Ford Motor Company em Dearborn, que assistiu friamente Hitler romper uma após outra, as determinações do Tratado de Versalhes, observando-o marchar na Renânia, no Sarre, na Áustria e mesmo na Czecholslovakia, e mesmo assim  continuou lhe fornecendo o mercado de exportação que ele precisava desesperadamente, e as importações que precisava ainda mais. Os principais produtos necessários à Ford-Werke AG, eram a borracha e metais não ferrosos, não por acaso   necessários à máquina de guerra de Hitler.

 

Hitler cerceou cada vez mais a sua utilização por empresas estrangeiras de automóveis, como a Ford, que ainda estavam fabricando carros de passeio. O resultado, como Hitler devia estar esperando, tal como uma certeza matemática, foi um telegrama enviado em 1936, pela Ford-Werke AG, para a Ford Motor Company de Dearborn, dirigido ao presidente da corporação, Sr. Edsel B. Ford:

 

“A compra de pneus na Alemanha…agora é inteiramente impossível …” E prosseguiu, descrevendo a situação como “catastrófica”.

 

 

 

A Ford teve na verdade, dois papéis bastante distintos dentro da Alemanha. Nos anos imediatos à guerra (1937 a 1939), a Alemanha de Hitler, adquiriu 52 por cento do estoque da Ford-Werke AG. Estas negociações tiveram o aval de Edsel B. Ford, então presidente da Ford Motor Company, de Dearborn, e Charles E. Sorenson, então vice-presidente da Ford Motor Company, e posteriormente presidente da Willys-Overland Motors.

 

Obviamente que se pode argumentar que eles não poderiam adivinhar que Hitler deflagraria uma guerra, mas a Alemanha já deixava uma série de pistas que estaria por deflagar algo muito grandioso. Também não se tem o intuito de questionando o patriotismo de Edsel Ford e Charles Sorenson. O fato é que enquanto representantes da proprietária majoritária da Ford-Werke e membros do grupo de diretores das chamadas “Deutschen Werke” (algo como Empresas Alemãs), a Ford Motor Company:

 

  1. Mesmo assistindo à escalada armamentista e militarista da Alemanha, a Ford Motor Company (Dearborn) firmou um acordo junto à Ford-Werke AG, no ano de  1937. O resultado foi a primeira negociação de escambo entre as duas empresas. Nos termos do acordo, a Ford Motor Company de Dearborn comprometeu-se a fornecer borracha e outros materiais (negro-de-fumo, algodão, etc) para os fabricantes de pneus da Alemanha, e aceitar em troca, automóveis e peças (especialmente rodas, rolamentos e velocímetros) produzidos pela Ford-werke AG. Como a Ford Motor Company – Dearborn não venderia os produtos alemães no mercado americano, eles seriam enviados diretamente aos seus mercados estrangeiros, principalmente na América Latina.

 

Já na Alemanha, a borracha, o algodão e o negro-de-fumo, eram descarregados em Hamburgo, Bremen e outros portos, com o detalhe que 30 por cento deste material seria colocado diretamente à disposição do Ministério da Guerra, o que em outras palavras, significava que a Ford (EUA) aprovava o envio de grandes quantidades de borracha e metais não-ferrosos, provenientes de seus estoques nos EUA, para a Alemanha, já sabendo que grande parte deste estoque seria utilizado conforme as determinações alemãs.

 

No ano de 1938, o acordo de escambo entre as empresas foi novamente firmado, mas desta vez também englobava ferro-gusa e metais não-ferrosos. Outra vez o negócio foi aprovado pelo Ministério da Economia da Alemanha, que agora exigia 30 por cento da borracha e 20 por cento dos metais, para seu uso próprio. No ano seguinte o acordo foi repetido, tendo praticamente os mesmos moldes.

 

  1. Contratos aprovados antes de Pearl Harbor, entre a Ford-Werke e o governo da Alemanha, resultaram para o ano de 1942, na produção de 100 a 120 mil, dos 350 mil caminhões que a Wehrmacht tinha à sua disposição.

 

  1. A Ford Motor Company (EUA) também aprovou um contrato especial, em que a Ford-Werke iria produzir veículos de natureza estritamente militar para a Wehrmacht, em uma nova fábrica a ser construída, de acordo com a exigência da Wehrmacht, na zona “segura” de Berlim. O contrato especial foi assinado em 1938, depois de Sorenson visitou a Alemanha.

 

Foram gastos três anos para a negociação ser finalizada e envolveu uma série de telegramas para os EUA e dos EUA, além de diversas visitas de pessoal da Ford de Dearborn à Ford-Werke e vice-versa. Os registros mostram que a Ford alemã estava ansiosa pelo contrato, não só pelos lucros envolvidos, mas também para obter a boa vontade do Alto Comando alemão, que aparentemente foi quem primeiro abordou o assunto de construir um carro militar especial. Os registros também mostram que a Ford Motor Company de Dearborn, estava hesitante, isto porque em primeiro lugar, o contrato envolvia a criação de uma nova fábrica, no que era então considerado pelo Alto Comando alemão, como a zona (de Berlim) absolutamente segura.

 

A produção do carro militar começou em 1939, em uma fábrica de Berlim, todavia a falta de material e as mudanças frequentes, levaram ao abandono do projeto, após a fabricação de apenas 1100 exemplares, embora a fábrica também ter sido utilizada por determinado tempo, para produzir itens da Luftwaffe e peças sobressalentes para a fábrica de Colônia. A unidade foi fechada em 1942, após o sucesso da Wehrmacht no oeste ter feito parecer que Colônia estaria sempre à salvo de ataques.

 

  1. Aprovação em abril de 1939, após seis anos de hitlerismo na Alemanha, e quatro meses antes do ataque à Polônia, a entrega de um presente, consistindo da soma de 50’000RM a Adolf Hitler, por ocasião do seu 50 º aniversário de nascimento.

 

  1. Aprovação pela parte da Ford-Werke, do patrocínio de um estabelecimento musical, que cantava louvores a Hitler e vangloriava o papel da Ford-Werke na produção de guerra da Alemanha Nazista.

 

  1. Aprovação de uma política geral que em suma colocou o conglomerado Ford, com seu  “know-how” e seus departamentos de vendas internacionais a serviço da Ford-Werke AG, para permitir que sua filial alemã aumentasse suas exportações, e assim obtivesse divisas preciosas para a Alemanha manter o financiamento da guerra.

 

 

 

 

 

 

 

Pouco depois do início da guerra (mas antes da Alemanha declarar guerra aos EUA) Heinrich F. Albert, então presidente do conselho de administração da Ford Werke AG, preparou um memorando para defender a tese que a propriedade majoritariamente americana da empresa, era de interesse da economia nacional alemã. Abaixo seguem algumas das partes deste memorando, que é bastante convincente:

 

“Nos últimos sete anos, a Ford-Werke AG, foi se transformado em uma empresa alemã, com uma intensidade crescente. Não só veículos e peças são produzidas na Alemanha, mas trabalhadores alemães, utilizando materiais alemães, sob a direção de alemães os produzem…

 

“Neste contexto, todas as matérias-primas estrangeiras necessárias, foram obtidos através da empresa americana (borracha, metais não ferrosos), para cobrir não só as necessidades de produção de sua filial alemã, mas, em parte, para toda a indústria alemã.

 

Já durante a paz, a influência americana tem sido mais ou menos convertida em apoio para indústria alemã. Com a eclosão da guerra, a Ford-Werke AG colocou-se imediatamente à disposição das forças armadas para fins de armamento.

 

Entre os motivos que argumentam contra a germanização completa do capital da Ford-Werke, a principal é a organização de vendas excelente, que graças à sua ligação com a empresa americana, está à disposição da Ford-Werke AG, que de acordo com a sua produtividade e capacidade, as fábricas alemãs pode exportar para todos os países do mundo, e nisso eles são protegidos e apoiados em matéria de fixação de preços, pela empresa americana. Em alguns países, isso levou a tornar possível a exportação de carros alemães Ford, mesmo onde o resto da indústria alemã foi incapaz de encontrar base sólida. Isso limita ou impede competição de distância puramente americana até certo ponto.

 

Enquanto a Ford-Werke AG tem uma maioria americana, será possível trazer as restantes empresas europeias Ford, para a influência alemã, e assim, executar a maior política europeia neste campo. Assim, se a maioria americana for eliminada, cada empresa Ford, em cada país vai lutar por sua existência individual. O justo agora a juntar o sucesso realizado com  a  potencialidade da União Europeia não-alemã.

 

A execução mesmo que pequena, pelos americanos é essencial para a livre  transmissão de novos modelos americanos, assim como para a percepção da produção americana e seus métodos de vendas. Desde que os americanos são, sem dúvida, particularmente progressivo neste campo, a manutenção desta ligação é do interesse da Alemanha. Esta (ligação) não pode ser realizada apenas através de taxas de licença ou estipulações contratuais. Com o supressão da maioria americana, esta vantagem, bem como a importância para a sociedade, para a obtenção de matérias-primas e de exportação seria perdida. A planta praticamente valeria  apenas por seu maquinário.”

 

 

 

 

Com a declaração de guerra da Alemanha aos Estados Unidos, após Pearl Harbour, os nazistas assumiram formalmente o controle da Ford-Werke. Os membros americanos do conselho de diretores foram expulsos e Robert Schmidt, o homem que tinha sido o Gerente-Geral da empresa, quando esta era de propriedade norte-americana, tornou-se o guardião administrativo para Hitler.

 

Mesmo assim, a fábrica alemã, construída com fundos norte-americanos e operada por homens que haviam adquirido o “know-how” americano, continuou produzir entre 15 e 20 por cento de todas as unidades móveis, de todos os tipos,  fabricadas para a Wehrmacht no decorrer da guerra. Também produziu motores e peças para a Junkers, desempenhou um papel extremamente importante no programa de manutenção da Wehrmacht, devolvendo ao campo de batalha,  unidades motoras danificadas pelo inimigo e controlou e operou secretamente uma planta conhecida como Colônia Arendt GMBH, que em tempos de paz, havia fabricado peças Ford, e que durante a guerra produziu munições sob a supervisão direta do Alto Comando da Wehrmacht.

 

Estranho é que isto nunca é mencionado em documentários ou filmes de  guerra. Creio que  seria extremamente embaraçoso afirmar que muitos dos soldados americanos mortos ou feridos, só tiveram este destino porque uma das maiores empresas americanas, providenciou os materiais essenciais para a Alemanha, e que provavelmente sem esta ajuda, não teria condições de manter uma guerra até 1944-45.

 

 

 

 

 

 

Fonte:

Northwest Area News,  Edição nr 126, de agosto de  1994 e Edição nr 127, de setembro de 1994. Reimpressão do artigo publicado no Jornal de Campanha Americano, de autoria de Victor H. Bernstein – 1945

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *